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O desafio secreto dos grandes bancos brasileiros

Excelente texto de Guilherme Horn

Os grandes bancos brasileiros têm dois grandes desafios pela frente: um aberto e conhecido por todos; e outro que permanece velado e encoberto pelo discurso do primeiro.

O primeiro desafio é promover uma mudança cultural que os coloque em condições de competir no mundo digital. Isto não é novidade pra nenhum grande banco. Todos eles estão cientes deste desafio e, de alguma forma, trabalhando para superá-lo. 

Em entrevista ao Estadão, em julho de 2019, o Presidente do Itaú, Candido Bracher, encarou de frente o tema: “a chave para o êxito está na capacidade permanente de se transformar”, diz ele, com muita propriedade.  Por isso, esta transformação é cultural e não, tecnológica. A tecnologia é a alavanca, mas a vantagem competitiva está na cultura.

Até aqui parece haver um consenso no mercado. Os grandes bancos já entendem a relevância da diversidade para se gerar Inovação. Sabem que os espaços de trabalho devem ser coloridos, com sofás confortáveis e mesas de sinuca. Os horários passaram a ser flexíveis e o dress code é quase livre. As equipes estão organizadas em squads, que reunem pessoas de todas as áreas, trabalhando com metodologias ágeis. Quase todos os grandes bancos chegaram até aqui.  E talvez todos achem que isso será suficiente, pois o embrião está gerado e agora é só escalar o modelo. 

Sinto dizer que é um ledo engano. O grande passo está no desafio secreto, que não foi encarado por nenhum deles: é a mudança de lado no balcão de atendimento. Candido Bracher, na mesma entrevista, menciona que passou um dia recentemente numa agência do banco, trabalhando em diversas funções, e que esta experiência faz parte de um programa que vai abranger todos os diretores. A iniciativa é louvável, em se tratando de uma organização deste porte. Estou certo de que gera insights incríveis para a organização. Entretanto, se o David Velez, CEO do Nubank, fosse promover um programa semelhante, provavelmente colocaria seus diretores como meros e mortais clientes, fazendo-os seguir os processos do banco para entender suas verdadeiras dores ao longo de sua jornada (na verdade, isso não é necessário, porque todos os funcionários do Nubank são clientes e no dia-a-dia utilizam os canais normais de atendimento).

Quando os grandes bancos falam em Customer Centricity, referem-se à sua visão de cliente. Uma visão estruturada e fragmentada, que está longe da experiência real de um consumidor. Além disso, o que faz um cliente amar uma marca é a sua atitude quando as coisas dão errado, quando o processo não funciona. Porque é neste momento que a empresa mostra de que lado do balcão ela está. As empresas digitais fazem diariamente a opção pelo cliente, de forma natural. Sem que o consumidor precise reclamar, escalar o problema, ir ao Reclame Aqui ou mesmo à justiça. Ao contrário, nestes momentos, as empresas conseguem capitalizar em cima da insatisfação do cliente, reverter a situação surpreendendo-o, o que o torna ainda mais fiel e um verdadeiro embaixador da marca.

Se o primeiro desafio não foi fácil até agora, imagine o próximo. Como em qualquer processo de mudança, primeiro as organizações precisarão enxergar a necessidade de dar este passo. Depois, admitir que não o fazem ainda (costumo ouvir com frequência: “nós já fazemos isso”). E em seguida começar a praticar de verdade. 

Há um termômetro que uso para medir o quanto a empresa está de fato sentada do outro lado do balcão: é a autonomia de quem lida com o consumidor. Quando você tecla no chat com um atendente da Amazon, você se sente falando com o Jeff Bezos, tal é a autonomia do atendente. Isto acontece porque toda a empresa está sentada do outro lado do balcão, então qualquer decisão solidária ao consumidor é natural.

Os bancos que quiserem de fato ser competitivos no mundo digital precisarão encarar o segundo desafio e entender que aumentar o NPS não tornará o banco tão amado quanto a Apple.