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Bitcoin – parte 2/3

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Material retirado do livro “Do Escambo à Inclusão Financeira” – A Evolução dos Meios de Pagamento, publicado em novembro de 2014.

A mineração

O processo de mineração significa realizar uma série de cálculos matemáticos complexos para criar blocos adicionais na “cadeia de blocos” [block chain em Inglês], em que os mineiros são recompensados com 25 Bitcoins. A solução é então transmitida para toda a rede, e a competição por um novo bloco (e sua recompensa de vinte e cinco moedas) recomeça.

No começo, qualquer um armado com um computador comum pode baixar e executar o software BTC e obter (ou “minerar”) Bitcoins. Quanto mais poder de computação você puder dedicar à tarefa, melhor as chances de chegar em primeiro lugar em cada solução. Esta característica do sistema, pelo projeto, resultou em uma espécie de corrida computacional. Quatro anos depois do início do projeto Bitcoin, somente máquinas muito poderosas têm musculatura suficiente para manter o ritmo com os “mineradores” existentes na rede.

Desta forma, BTCs são extraídos como o ouro costumava ser, em quantidades pequenas em relação ao total, de modo que o fornecimento cresce lentamente. O nível de complexidade de mineração é regulado de modo a criar um fornecimento pré-estabelecido de novas moedas até o limite de 21 milhões de moedas incorporadas ao software; o último deverá ser extraído em 2140. Depois disso, presume-se que haverá bastante tráfego para manter benefícios que fluam na forma de taxas de transação, em vez de mineração novas moedas.

Da perspectiva do usuário, Bitcoin não é nada mais do que um programa aplicativo ou computador móvel que oferece uma carteira BTC pessoal e permite a ele enviar e receber bitcoins com eles. Nos bastidores, a rede Bitcoin compartilha uma contabilidade pública chamada “cadeia de blocos”. Esse livro-caixa contém todas as transações já processados, permitindo que o computador do usuário possa verificar a validade de cada transação. A autenticidade de cada transação é protegida por assinaturas digitais correspondentes com os endereços de envio, permitindo que todos os usuários tenham controle total sobre o envio de BTCs dos seus próprios endereços Bitcoin.

Um endereço é como uma conta bancária em que um usuário pode receber, armazenar e enviar Bitcoins. Em vez de ser protegido fisicamente em um cofre, BTCs são protegidos com criptografia assimétrica (chave pública – chave privada). Cada endereço consiste em uma chave pública, do conhecimento de todos, e uma chave privada – que o proprietário deve manter em segredo. Qualquer pessoa pode enviar Bitcoins para outra, utilizando a chave pública, mas apenas a pessoa com a chave privada pode gastá-los, seja transferindo para outra pessoa, seja fazendo um pagamento por uma produto ou serviço. Embora os endereços sejam públicos, ninguém sabe quais endereços pertencem a quais pessoas: endereços BTC são pseudônimos.

Depois de depositar seus Bitcoins em uma “carteira”, a carteira alerta [broadcasts] todos os outros usuários de BTC que ela contém Bitcoins. Esta informação é incorporada na cadeia de blocos. A carteira gera uma chave pública acessível a qualquer um e uma chave privada ou endereço que autoriza o envio de Bitcoins para outros endereços públicos.

Quando um usuário perde a carteira BTC, é o mesmo que estivesse perdendo uma carteira convencional. Bitcoins perdidos ainda permanecem na cadeia de bloco, assim como quaisquer outras BTCs, no entanto, ficam em estado dormente para sempre, porque não há maneira de alguém encontrar a chave privada que lhes permitiriam ser utilizados novamente.

Marc Andreessen, co-fundador da empresa de capital de risco Andreessen Horowitz, tem uma boa definição de como BTC funciona: “Bitcoin é uma contabilidade pública distribuída em toda internet”. Você “compra” uma “vaga” na contabilidade, seja “minerando”, com dinheiro ou com a venda de um produto e serviço. Você “vende” saindo da contabilidade e negociando sua BTC para alguém que quer entrar na contabilidade. Qualquer um no mundo pode comprar ou vender sua posição na contabilidade a qualquer hora que quiser – sem a necessidade de aprovação e com taxas muito baixas (ou mesmo sem taxa alguma). As “moedas” Bitcoin em si são simplesmente lançamentos no livro-razão, semelhantes, de alguma maneira, aos assentos em uma bolsa de valores, com a diferença que serem muito mais amplamente aplicáveis às operações do mundo real.

A contabilidade Bitcoin é um novo tipo de sistema de pagamento, sem a necessidade de um controle central para autorizar a transação, e em muitos casos, sem taxas. Essa última parte é extremamente importante. BTC é o primeiro sistema de pagamento no mundo onde as transações acontecem sem taxas ou com taxas muito baixas (frações de centavos). Sistemas de pagamento existentes cobram taxas de cerca de 2 a 3% – em mercados competitivos – ou significativamente mais elevadas.

Uma ótima analogia ao Bitcoin é a descoberta do antropólogo norte-americano Willian Henry Furness III que, depois de passar diversos meses na ilha de Yap (localizada no Pacífico e, naquela época, com uma população de 5 ou 6 mil habitantes), escreveu um livro sob o titulo A ilha da moeda de pedra [The Island of Stone Money], publicado em 1910. Com o mesmo título, o renomado economista Milton Friedman, escreveu o famoso artigo publicado em 1991. Para não perder a narrativa, faço aqui uma livre tradução de um trecho do texto original:

(…) [como] sua ilha produz nenhum metal, eles recorrem à pedra, cujo dispêndio de trabalho em buscar e confeccionar é tão verdadeiramente uma representação do trabalho como as moedas mineradas e cunhadas da civilização.

Seu meio de troca que eles chamam de “fei” consiste em pedras sólidas, grossas trabalhadas tal como rodas com diâmetro que variam de um a 12 pés, tendo no centro um buraco grande o bastante para ser inserido um poste forte o suficiente para suportar o peso e facilitar o transporte. Essas “moedas” de pedra [feitas de calcário encontrado em uma ilha à cerca de 400 milhas de distância onde] foram originalmente extraídas formatadas e trazidas para Yap por alguns ousados navegadores nativos, em canoas e em jangadas (…)[uma] característica notável desta pedra moeda (…) é que não é necessário para o seu proprietário exercer sua posse. Depois de concluir um negócio que envolve o preço de um “fei” muito grande para ser convenientemente movido, seu novo proprietário fica satisfeito em aceitar o reconhecimento de sua propriedade e, sem mesmo uma marca para indicar a troca, a moeda permanece em repouso nas instalações do antigo proprietário.

Meu velho e fiel amigo, Fatumak, garantiu-me que havia na aldeia próxima, uma família cuja riqueza era inquestionável, reconhecida por cada um, e ainda assim ninguém, nem mesmo a própria família, já tinha posto os olhos ou as mãos nessa riqueza que consistia de um enorme “fei”, cujo tamanho é sabido apenas por tradição; e assim tem sido nas últimos duas ou três gerações; naquele momento, [a pedra] está repousada no leito do mar.

Muitos anos atrás, um ancestral dessa família, em uma expedição na busca por “fei”, garantiu que esta pedra extremamente grande e valiosa, foi colocada em uma balsa para ser rebocada para casa. Uma violenta tempestade se levantou, e os tripulantes, para salvar suas vidas, foram obrigados a deixar a balsa à deriva, e a pedra afundou longe de suas vistas. Ao chegar em casa, todos eles testemunharam que o “fei” era de proporções magníficas e de qualidade extraordinária e que se perdeu, não por culpa do proprietário. Então ela (a pedra) foi universalmente admitida (…) e o mero acidente de sua queda no mar foi muito insignificante. Afinal, o fato de estar a algumas centenas de metros abaixo da água não deve afetar seu valor de mercado, uma vez que foi cortada da forma correta. O poder de compra da pedra permanece, portanto, como válido como se [a pedra] estivesse apoiada visivelmente contra a lateral da casa do proprietário …”